Como é o Atendimento de Saúde Pública na Itália? Meu drama com Pedras nos Rins!
Postado por Carol Capel, no dia 13 December 2017
Era por volta de 11h da noite quando eu tinha acabado de jantar, peguei o computador do Marcelo e me sentei no sofá para jogar um jogo. Quando de repente comecei a sentir um desconforto na região lombar. O mais engraçado é que devido às minhas milhares de crises renais eu já logo desconfiei o que era: PEDRA NO RIM! Assim como toda boa cólica renal que se preze, essa não foi diferente e em menos de 1 - 2 minutos a dor já estava insuportável! Foi então que eu falei: “só me faltava essa, não falta mais nada.” Afinal de contas quem me assiste sabe que eu moro no fim do mundo. A dor foi ficando insuportável e então me lembrei do número da emergência italiana 118. Peguei o celular e já pedi pro Marcelo ir correndo pegar um acetaminophen (remédio milagroso para cólicas menstruais que eu trouxe dos EUA). 

No telefone: 

Liguei e em menos de 1 toque o serviço de emergência nacional me atendeu. Eu, sem falar direito Italiano disse: PRECISO DE UMA AMBULÂNCIA PER GIGNESE!!! Dai o cara que me atendeu cismou que precisava colocar um tradutor português-italiano na linha. Meia noite e ele procurando o bendito tradutor. Depois de 8 minutos me volta ele: Senhora, não encontrei o tradutor! Dai eu: amigo, procure um tradutor Inglês - italiano que eu falo inglês! Ele prontamente voltou na língua com um tradutor de inglês italiano. Dica #1: Cada dia mais e mais eu percebo o quanto falar inglês literalmente me salva. A mulher confirmou meus dados, meu endereço e disse que iria mandar uma ambulância. 


Então, você não precisa falar todas as línguas do mundo, apenas: inglês e espanhol e você sobreviverá em uma emergência. Em menos de 20 minutos a ambulância estava na minha porta. Graças ao acetaminophen, que é milagroso, eu não estava com tanta dor. Os três moços da Cruz vermelha italiana entraram na minha casa e acredite: Dois deles falavam inglês muito bem. Eu como não sou trouxa e nem nada já logo aprendi como se falam as palavras mais importantes pro meu caso: “cólica renali” E outras várias! Fui removida pro hospital quase que sem dor mas vomitando na ambulância. Ao chegar no hospital veio o primeiro choque de realidade! Pra nos que moramos nos EUA, qualquer hospital na Itália vai ser um choque mesmo. 


Porque lá nos EUA não existem hospitais públicos, então as instalações lá são verdadeiras “obras de arte”. Você pode imaginar meu susto ao ver o naipe do hospital italiano. Ao chegar eles foram fazer minha “registrazione” e a enfermeira que não estava nem um pouco a fim de ajudar não conseguia encontrar o nome da minha cidade no sistema! É tão fim do mundo que nem no sistema tem. Depois de umas 4 tentativas ela me registrou, os paramédicos da ambulância foram embora e ela me pediu pra aguardar na sala da emergência. Alguns minutos depois uma médica chegou e me pediu para entrar na sala, fez um exame clínico apalpando e constatou que realmente poderia ser uma crise renal.

 Ela já ali mesmo na sala sacou um aparelho de ultrassom que foi algo que me surpreendeu porque nos EUA eles não fazem ultrassom e sim: Cat-scan que é uma tomografia computadorizada. Fazia 3 anos que eu não via um aparelho de Ultrassom. Ela olhou meus rins em menos de 0.5 minuto e eu achei muito rápido. Depois veio a mesma enfermeira que não conseguia achar a cidade no sistema, tirar sangue de mim. O que mais me assustou foi que ela não conseguiu pegar minhas veias e fez um verdadeiro estrago no meu braço em menos de 1 min. 

Conclusão: 

Não tinha pedra no rim, provavelmente no caminho para sair. Se fosse nos EUA eles saberiam com precisão onde estava a pedra e ainda falariam quanto tempo ela demoraria pra sair. Me deram um analgésico na veia e me mandaram pra casa. Peguei um táxi da Verbania para Gignese que deu 60 Fucking Euros! Cheguei em casa e devido ao frio das 3h da manhã eu fui fazer um chá. Terminei de tomar meu chá sentada na mesa e ao levantar a dor voltou, dessa vez muito mais forte. Eu relutei para ligar para a ambulância novamente, não queria ser levada para aquele hospital da Verbania novamente. Depois de tomar o acetaminophen novamente e perceber que a dor não ia melhorar eu peguei o telefone disquei 118 novamente. E dessa vez não precisou nem de tradutor. Chorando eu falei: Che bisogno di una ambulancia. (Se estava certo? Não sei, mas me deu certo). Eles já tinham meus dados, falaram: CONFERMA TU INDIRIZZO segnora. E em 20 min os mesmos paramédicos da primeira vez estavam aqui. Dessa vez foi diferente, eles disseram que iam trazer os médicos aqui! E depois de 15 min os médicos chegaram mesmo, ao todo tinham 6 pessoas na minha sala. 1 médico, 2 enfermeiros e 3 bombeiros. 


O médico disse que a pedra estava se movendo pra sair e que ia me dar um soro para a dor com paracetamol ali mesmo. Eu pensei: QUIRIDO tá de sacanagem comigo né? Paracetamol é água com açúcar. Por fim tomei o soro e a dor ainda estava muito forte. Parece que serviu para aumentar a dor somente. O bom é que dor de cólica renal não dá para maquiar e não tem como os médicos não perceberem que você está com muita dor realmente. Pois quando você está com cólica renal a sua pressão fica altíssima. Mediram minha pressão e decidiram finalmente pela MORFINA, sagrada Morfina. Se fosse nos EUA, teriam me dado morfina de primeira sem ao menos perguntar nada. Depois da injeção de morfina que me fez ver duendes dentro da sala, a dor finalmente diminuiu e eles foram embora. 

Quanto me cobraram? Até agora nada! 

Nenhum centavo de euro. Nada nada mesmo. Se a conta vai chegar depois não sei. O que sei é que em nenhum momento falaram em pagamento durante as 6 horas que fiquei em “trabalho de parto” de uma pedra. Se fosse nos EUA a primeira coisa que eles iam querer saber é se você tem seguro, qual o tipo de cobertura e já iam te passar um valor absurdo de 6 mil dólares + 2 mil pela primeira ambulância e 2 mil pega segunda (foi isso quo me cobraram quando o Marcelo foi de ambulância pro hospital). Absurdo não? Esse é um dos principais motivos pelos quais eu saí dos EUA: saúde! Lá a saúde pública não existe! E mesmo tendo um plano de saúde Royale pela empresa, eu vivia pagando absurdos co-payments de até 25% do valor total da consulta. 


Por aqui, nada me cobraram e eu acredito que nem vão cobrar. Essas são as vantagens de ser cidadão europeu. Dicas: Saiba o número da emergência: 118 (na Itália) Saiba falar pelo menos um pouquinho de italiano ou uma segunda língua que não seja português. Mesmo sendo parecido com o italiano, eles não entendem português. Ao contrário do que dizem por aí, os italianos não são grossos e gostam de ajudar SIM, então não sinta vergonha ou medo de pedir ajuda. No Brasil (país do calor humano) minha avó faleceu esperando a ambulância do SAMU que nunca veio. Então eles te respeitam independente da sua nacionalidade, raça, cor e por incrível que pareça: Cor de cabelo. 

Quando eu cheguei no hospital havia uma moça sentada numa maca com o namorado dela, ela estava doente, mas parecia bem saudável para falar da vida e do cabelo alheio. Infelizmente o brasileiro tem a quem puxar nesse quesito, os italianos reparam MUITO na aparência das pessoas, principalmente se for algo diferente. Eu estava tão acostumada com a descrição dos americanos que ainda não consigo me acostumar com as “fofoquinhas” e olhares dos italianos pra você quando você é diferente ou tem cara de gringo. Muitas pessoas pensam que eu sou sueca ou holandesa, pelo tom de pele, cor de cabelo e jeito de falar inglês. Por isso qualquer lugar que eu e o Marcelo vamos somos alvo de “fofoquinhas” por parte dos italianos. 

Parece que somos a atração da cidade! Isso aqui no interior claro. Independente do seu status migratório, se você é turista, estudante, morador, residente permanente ou cidadão, o sistema de saúde VAI TE ATENDER. 
É aquela coisa: eles não vão te deixar morrer. Então quando você chegar no pronto-socorro ou precisar de uma ambulância como eu precisei, apenas apresente seus documentos, mesmo que for só um passaporte brasileiro já serve. 

No meu caso eu apresentei o passaporte, a carta de identita e o codice fiscale. 


Em tese se você tem Codice Fiscale (cpf italiano) você paga impostos e se paga você tem direito à saúde pública. 

Espero que esse post tenha sido de muita valia para todos vocês que precisam e buscam essa informação. 

Quando eu criei esse blog minha intenção era de ajudar as pessoas e eu acredito que minhas experiências aqui morando fora ajudam outras pessoas que querem morar fora também. Por isso resolvi fazer esse post.

Beijos